VENEZA - VIAGEM NO TEMPO
VENEZA não é uma cidade como as outras. Pertence à
Itália, mas está até mesmo fora de seu território, abrigada numa
laguna do Mar Adriático. Não foi feita para carros, nem para gente deste
tempo, mas para heróis de dias em que navegar era preciso. Visitá-la é
uma
Viagem diferente, fascinante, imperdível e fora dos padrões
do turismo moderno. Aqui, é preciso ter sensibilidade para projetar-se no
clima do século 15, quando a cidade já era do jeito que é hoje. Quem
vem para cá não está só saindo de férias, mas sobretudo viajando NO TEMPO
Em qualquer lugar do mundo seria uma simples fila de
ônibus. Gente comum numa linha desordenada, a dona da frente bocejando, o
irmão capeta enfiando o dedo no sorvete da irmã chorosa. O veículo
desponta na curva ao longe, ainda há uma parada antes desse ponto, mas
já as pessoas se agitam, um passinho à frente, a menina devolve a
desfeita ao irmão na forma de um tapa estalado. O trânsito é
tipicamente urbano, bons e maus motoristas que se xingam, os fortes em
cima dos fracos. Tudo absolutamente ordinário, fosse o cenário Rio, Nova
York ou Pequim, fosse o caminho uma rua ou avenida, houvesse nas
proximidades arranha-céus, pagodes ou barracos. Mas não é.
Aqui nada é comum ou plausível, a não ser o
comportamento humano, esse parece não variar jamais, seja o das
crianças, dos transeuntes ou dos condutores. Aqui é Veneza - e portanto
a avenida é um canal, o ônibus é uma embarcação e as cercanias são
palácios estranhos que brotam da água como recifes estranhamente
esculpidos com formas bizantinas. Aqui não há, com certeza, uma cidade
normal e portanto é estranho descobrir gente vivendo normalmente,
mulheres bocejando ou irmãos se provocando numa fila cotidiana.
O mínimo que se poderia esperar dos venezianos é que
tivessem guelras e escamas, já que há catorze séculos vivem na água,
literalmente dentro do Mar Adriático. Mas o máximo que se vê, nos
gestos hábeis do condutor do vaporetto que agora encosta no cais, é uma
grande intimidade com a base líquida sobre a qual manobra o equivalente
veneziano de um ônibus-circular. A mesma que se percebe nos gondoleiros,
nos pilotos das lanchas aquáticas que servem como táxis ou nas mammas
que, à força do remo, empurram os botes que têm na porta de suas casas
rumo às compras no mercado de Rialto.
Todo mundo aqui tem uma ligação obrigatória com a
água. É uma relação delicada, amorosa e freqüentemente tensa, que se
assemelha à de um casamento e por isso é comemorada anualmente numa
cerimônia em que a cidade entrega uma aliança de ouro para as águas da
laguna em que se situa. Repete-se, nessa data, a famosa frase proferida
pelos antigos doges da cidade:
Desponsamus te mare, in signum veri perpetuique dominii.
(Te desposamos, ó mar, em sinal de nosso perpétuo domínio.)
A declaração tem uma solenidade que combina com
Veneza. É pretensiosa como os balcões mouriscos dos palazzi que margeiam
o Canal Grande e imponente como as torres das centenas de igrejas que dão
um aspecto místico ao skyline da cidade. Mas é falsa como uma nota de 3
dólares. Veneza não tem perpétuo domínio sobre o mar: ao contrário,
é dominada por ele. Resiste como pode, é verdade. Mas o mar corrói suas
construções, invade suas praças e afugenta seus habitantes. Nos
últimos quarenta anos, a população da cidade diminuiu menos da metade.
De 175 mil habitantes, restaram apenas 78 mil. Os que ficaram têm em
média 46 anos de idade, seis a mais do que o resto dos italianos. Porque
os jovens, principalmente eles, fizeram o caminho contrário ao percorrido
por 12 milhões de turistas a cada ano. Abandonaram o barco. Deixaram para
trás o feitiço de uma cidade parada no tempo e foram buscar o futuro no
continente.
Decadência? Não: Veneza desconhece esse vocábulo. O
que ocorre por aqui é apenas uma readaptação de vocações. A grandeza
da cidade foi conquistada por meio da navegação e do comércio. Veneza
foi, por séculos, a porta do Oriente. Por ela chegaram ao Ocidente as
especiarias, o café, o macarrão e a seda. Entreposto de riquezas, ela se
locupletou. Enfeitou-se com as mais belas obras de arte que foram dar no
seu porto. Vestiu-se com as sedas mais delicadas e os veludos mais suaves.
Perfumou-se com as essências mais exóticas e ornou-se com as pedras mais
preciosas que trouxe de terras distantes. Guardou para si as mais valiosas
relíquias que, com sua ajuda, os cruzados foram buscar na Terra Santa.
Selecionou e assimilou as mais belas influências bizantinas. Cuidou-se e
maquiou-se como a senhora rica e vaidosa que, de fato, foi. Depois, parou,
pela simples razão de que não havia mais espaço em suas 118 ilhas,
alinhavadas por 150 canais e interligadas por mais de 400 pontes. Parou e
ficou se exibindo, obra perfeita e cuidada que era. Isso no século 15. A
América estava por ser descoberta e a cidade já tinha, fundamentalmente,
a mesma aparência que tem hoje. Veneza tornou-se um afresco de seu tempo.
Um anacronismo num mundo habituado a soterrar seu passado a cada
geração.
Essa é, desde então, a vocação da cidade.
Exibir-se, como o grande museu ao ar livre que de fato se tornou. Não
mais trazer e buscar riquezas, até porque isso hoje é tarefa de
profissionais mais apressados e menos apaixonados do que foi, por exemplo,
Marco Polo, o legendário explorador veneziano, que teria sido o primeiro
ocidental a alcançar o Extremo Oriente numa épica viagem que começou em
1271 e terminou em 1295.
Hoje há historiadores que contestam a saga de Marco
Polo, o que não passa de bobageira acadêmica diante do incontestável
fato de que Veneza é o que é por mérito de seus heróis do passado. Se
não foi Polo, foi Giovanni ou Alfredo ou quem seja. Mas Veneza, La
Serenissima, continua lá, mergulhada no Adriático, esplêndida e irreal.
As pessoas que vêm para cá atrás desse esplendor
não se decepcionam, a menos que tenham a sensibilidade de uma coluna de
concreto. É impossível, nesta cidade, encontrar um ângulo ruim. Você
olha para a direita e dá com uma viela arrancada da Idade Média, olha
para a esquerda e vê-se em pleno Renascimento ao lado de Bellini (não o
zagueiro: o pintor!), olha para cima e vê o campanário de uma igreja
secular, olha para trás e o sol do Mediterrâneo provoca reflexos
dourados nas águas do Bacino di San Marco. Mas para se apaixonar pela
cidade é preciso que você tenha um cromossomo em comum com Goethe,
Mozart, Tiepolo, Thomas Mann, Wagner, Hemingway, Tintoretto, Verdi,
Stravinsky ou qualquer outro dos gênios que, não por acaso, aqui
buscaram inspiração para suas obras.
Caso contrário, você vai estar inclinado a enfocar as
mazelas de uma cidade que, afinal, permanece parada no tempo tanto para o
bem quanto para o mal. Isto significa, por exemplo, que você não vai
gostar do mal cheiro que os canais exalam quando o calor aumenta, nem da
profusão de ratos que infestam os porões e justificam a preferência dos
venezianos pelos gatos como animais de estimação.
Ora: pois se a cidade não sofreu nenhuma mudança
desde o século 15, é natural que seu sistema de saneamento não seja
moderno, digamos, como o de Toronto ou Bruxelas. Em contrapartida, você
também não iria encontrar, naquelas duas cidades, 450 palácios de valor
artístico inegável como os que se vê aqui, encostados uns aos outros.
Vai muito, é claro, da reação do freguês - e por
isso tantas vezes se vê debates acalorados entre turistas que estiveram
aqui e levaram consigo impressões conflitantes. Alguns, por exemplo,
ficam com a imagem da cidade gravada na alma pelo resto de seus dias.
Neste time jogam, principalmente, aqueles que têm a capacidade de ver
além do visível. Veneza se presta demais a esse exercício de retroceder
no tempo, recriar cenários, reencontrar-se com eras de fausto e de
conquistas. Pode-se sentir, nos campiellos e calles (pracinhas e ruas) a
presença de Casanova invadindo a varanda de donzelas relutantes ou a
procissão de beatas reverenciando a cabeça de Santo Estevão, o corpo de
São Marcos ou o dedo com que São Tomé tocou as chagas de Cristo,
relíquias que Veneza abriga nos seus templos incontáveis.
Mas os menos imaginosos se lembrarão, sobretudo, do
incômodo de carregar as malas por centenas de metros até o hotel (não
há carros na cidade, lembra-se?), ou do próprio hotel, que, para caber
no orçamento do turista, provavelmente terá algumas paredes mofadas,
escadas estreitas e íngremes e banheiros menos confortáveis do que os de
qualquer bed and breakfast nos Estados Unidos (não há prédios modernos,
lembra-se também?).
Eis por que, apesar de ser um dos mais espetaculares e
visitados destinos turísticos da Terra, Veneza é também um programa
seletivo, para pessoas com um perfil definido. Românticos de qualquer
espécie são bem-vindos. A atmosfera da cidade é propícia para todo
tipo de paixões e eis por que existem os gondoleiros que envergam as
tradicionais camisas listradas e os chapéus de palha com fitas coloridas.
Mas nem todos eles são tão legítimos assim, poucos cantam realmente
bem, a maioria nem sai do cais por menos de 50 dólares por hora (embora
valha negociar conforme a época do ano). De toda forma, não há
gondoleiros em nenhuma outra parte do mundo e se seu sonho é desfilar à
la Mastroianni e Cardinale no cenário que inspirou Vivaldi a compor As
Quatro Estações, você simplesmente não tem alternativa.
Veneza também é indicada para bons vivants em geral.
Tem restaurantes ótimos, pratos formidáveis, doces famosos (o marzipã
veneziano é insuperável), vinhos de boa origem e botecos chamados
bacaros, onde se encosta a barriga no balcão e come-se cicheti
(aperitivos salgados) que já davam água na boca nos marujos de Marco
Polo. Tem bares famosos na Piazza de San Marco, como o Florian’s e o
Quadri, que desde o século 18 competem pela freguesia com uma saudável e
nem sempre cordial disputa de orquestras na praça. Ou ainda o sempre
citado Harry´s Bar, predileto de Hemingway (estava em todas o
americano!), local onde foram inventados o carpaccio e o coquetel chamado
bellini, impagável mistura de champanhe com um pêssego especialmente
saboroso (aliás, pagável, a 10 dólares o copinho).
Veneza, enfim, é indicada aos poetas, aos sonhadores e
àqueles a quem sobrou algum sentimento mais duradouro do que uma camiseta
do Hard Rock Cafe ou um walkman japonês.
Já quem odiava aulas de História no ginásio, quem
não gosta de caminhar muitos quilômetros por dia, quem pensa que Ticiano
era ponta-direita do Napoli e quem não vive sem um supercontinental
breakfast, deve passar ao largo.
Veneza - importante que se diga - é uma cidade
difícil. Seus caminhos são labirínticos e você se perde a cada cinco
minutos, mesmo com o mapa oficial da Azienda di Promozione Turistica na
mão. Ela também é uma cidade cara - os venezianos que ficaram na cidade
tentam sorver até a última moeda de sua carteira. Veneza é, enfim, um
destino para se curtir mais com a alma do que com o corpo, mais com jeito
do que com complacência, mais com o coração do que com a cabeça.
É bom saber, de qualquer forma, que os venezianos são
de uma cepa especialmente forte, gente que aprendeu com a História a
conviver com situações adversas e por isso exibe uma altivez peculiar.
Na verdade, eles se instalaram no mar por pura falta de alternativa. De
origem diferente da dos romanos, o povo veneziano ocupa a região que hoje
se chama Vêneto desde mil anos antes de Cristo. A área pertence
politicamente à Itália e, se fosse um país, seria dos mais ricos e
desenvolvidos, com 4,5 milhões de habitantes, renda per capita de
Primeiro Mundo e indústrias como a Olivetti e a Benetton, entre outras
mundialmente famosas.
No passado, o Vêneto era continental, seu povo era
mercador e suas principais cidades eram Verona, Aquiléia e Pádua
(Padova), a capital. Suas terras iam do Adriático até as encostas
alpinas, mas eram freqüentemente atacadas por godos e visigodos. Em 452
depois de Cristo, Átila, o rei dos hunos, promoveu um ataque nunca antes
presenciado pelos vênetos e uma parte deles foi buscar refúgio na laguna
de 55 quilômetros de extensão e 13 de largura protegida do Mar
Adriático por uma ilha comprida hoje chamada Lido. Ali o mar era
relativamente calmo e, no desespero da fuga, alguns cidadãos ergueram
casas sobre palafitas. O primeiro núcleo urbano surgiu numa ilhota
chamada Torcello. Vieram, em seguida, Murano, Burano e Veneza (na época
chamada Rialto). Os fugitivos perceberam, então, que a laguna era rasa e
começaram a plantar milhões de estacas sobre as cabeças-de-morro que
mal emergiam das ondas. Em cima delas construíram suas casas.
Não se podia supor que ali estava nascendo uma cidade
de verdade, mas ninguém se preocupou com o assunto até que ela existisse
de fato e fosse responsável por uma tecnologia naval de que não se tinha
conhecimento. Oficialmente, de acordo com os cálculos do matemático
veneziano Sabellico, Veneza nasceu no dia 25 de março de 421, exatos 1
575 anos atrás. As contas não são lá muito exatas, mas coincidem,
aproximadamente, com a queda do Império Romano, conquistado pelo visigodo
Alarico, e dão uma certa lógica à história da península. De toda
forma, a data foi considerada oficial e marca o advento de um Waterworld
muitos séculos pré-Kevin Costner. Mais incrível do que o surgimento de
Veneza, porém, é o fato de que ela deu certo, enriqueceu e alcançou um
improvável apogeu na Idade Média, justificado apenas pela vocação
navegadora de seu povo. O grande símbolo do apogeu de Veneza é o leão
alado de San Marco. Instalado até hoje no alto de uma coluna na entrada
da cidade, ele tinha réplicas espalhadas pelas principais cidades da
região, que atestavam o orgulho do Império Veneziano pelo domínio que
exercia sobre os mares e o comércio. Muita gente considera que o fato de
o leão alado nunca ter sido destruído é uma prova da natureza amigável
do povo veneziano, que mesmo no auge do seu poder não foi beligerante nem
ameaçou, pela força, a existência de outros povos.
Excertos dessa longa história estão em toda parte por
aqui. E o melhor lugar para começar sua peregrinação ao passado é
mesmo a manjadíssima - nem por isso menos impressionante - Piazza San
Marco. Mesmo que você tenha de conquistar seu metro quadrado com a
tenacidade de um Marco Polo, entre turistas e pombos, que (ambos) arrulham
na praça, é fundamental pôr-se de frente para a basílica, construída
no século 11, uma mistura única de influências do Ocidente e do
Oriente. Erguida para consagrar a grandeza da República Veneziana, ela
também guarda os restos de San Marco, ou a ressurreição dos restos, que
teriam se incendiado no ano de 976 e reaparecido em 1094. A basílica é
tão cheia de detalhes fascinantes que você pode investir o resto da sua
vida ouvindo histórias e apreciando anjos e mosaicos. Mas se essa não
for sua praia, você terá alternativas, como caminhar pelas arcadas,
sentar nos bares, ver a Pietà de Bellini no Museu Correr (no lado oposto
ao da basílica), subir os 98 metros do Campanário de San Marco, virar à
direita na Piazzetta e explorar o Palácio dos Doges, um delírio de
arquitetura gótica e de superação humana.
Na Piazza, a única das centenas de praças de Veneza
que se chama piazza (as outras têm o nome de piazzetta, campo e
campiello), você precisa se lembrar de que, muito antes do memorável
show de Pink Floyd em 1989, aqui nasceu o carnaval, aquela festa de
mascarados e pagãos que transformamos em exibição do poderio dos
bicheiros.
A partir daí, o roteiro é seu. Literalmente tudo que
há em Veneza merece ser visto. Você pode optar em caminhar para a Ponte
do Rialto, região onde os comerciantes se concentravam há mil anos e,
reciclados, continuam até hoje. Claro que você não vai deixar de ver a
Ponte dos Suspiros, que não se chama assim por motivos românticos, mas
porque era o caminho onde os presos condenados à morte deixavam seu
último alento. Nem a Accademia, com seu incomparável acervo de arte. Nem
as exposições que animam quase todos os palazzi, nem as igrejas, nem os
canais, nem mesmo os escombros do Teatro Fenice, recentemente incendiado,
onde os maiores mestres da música dos últimos séculos se apresentaram
(e que Luciano Pavarotti está empenhado em reconstruir rapidamente).
Também não vai escapar de visitar os artesãos de
cristal de Murano, as casas coloridas de Burano e as demais ilhas que
dividem com Veneza a laguna no nordeste da Itália, já bem próxima à
Eslovênia. E se você for daqueles que gostam de ir a fundo em suas
viagens, não deixe de caminhar pelo labirinto que leva até a região do
Cannaregio, a menos procurada e mais autêntica da cidade. Ali entre
edifícios corroídos com varais esticados no espaço aéreo das vielas,
você vai encontrar, por exemplo, o primeiro gueto judeu do mundo (a
própria palavra gueto deriva de gettare, que significa jogar fora).
Em qualquer direção que se siga, enfim, seja no
distrito de Castello, San Polo e Santa Croce, Dorsoduro, San Marco ou
Cannaregio, você vai esbarrar com a mesma sensação de irrealidade, como
se fosse de fato impossível existir, em qualquer época que fosse, uma
cidade como esta.
Veneza encanta pela simples razão de ser. E a questão
que se coloca hoje é se ela continuará existindo por muito tempo. O
fenômeno chamado acqua alta, que equivale a uma grande inundação da
cidade, tem-se repetido com freqüência cada vez maior. O solo de Veneza
cedeu 23 centímetros em relação ao nível do mar neste século. Num
único dia - 4 de novembro de 1966 - a água atingiu 1,94 metro sobre a
cidade, explodindo todos os 432 transformadores elétricos e provocando a
fuga de centenas de famílias. Aterros na laguna, para a construção dos
horríveis pólos industriais de Marghera e Mestre e do paupérrimo
Aeroporto Marco Polo, são alguns dos vilões dessa história. Também
têm culpa no cartório os canais de navegação cavados na laguna, que
originalmente tinha uma profundidade média de apenas 2 metros.
Há projetos de salvação da cidade que nunca se
viabilizam, porque custarão no mínimo 4 bilhões de dólares e o
dinheiro que abundava na era das especiarias é artigo escasso na Itália
de hoje. Os políticos discursam, os turistas se acotovelam e Veneza vai
ruindo. Apesar disso, o problema está longe de ser insolúvel,
especialmente se forem adotadas soluções como a proposta pelo escritor
brasileiro Antônio Calado, que julga que cada ser humano que visita a
cidade deveria pagar uma taxa apenas por olhá-la.
Calado pode ser um péssimo administrador urbano, mas
é um poeta lúcido. E se há alguém que tem interesse em salvar a
cidade, esses são os poetas. Porque poetas vivem do incomum, do
implausível e do mágico. E não há nenhuma outra cidade que ofereça
esses ingredientes com a generosidade de Veneza.
O que fazer com seu tempo
Poucas cidades do mundo dependem tanto do interesse
específico quanto Veneza. Conforme o perfil do viajante (leia a
reportagem), um dia pode ser demais ou um ano pode ser muito pouco. Se o
seu objetivo é apenas "dar uma geral" na cidade, tirar aquelas
fotografias de sempre e poder contar para os amigos que
"conhece" Veneza, dois dias serão suficientes. Dá para você
ir à Piazza San Marco (sem entrar na basílica e no Palácio dos Doges),
passear até o Rialto, alugar uma gôndola por uma hora (a preços que
variam entre 45 e 60 dólares por 50 minutos, conforme sua capacidade de
negociar), comer bem e até pegar uma embarcação no cais da Piazza San
Marco para um passeio de três horas e meia que inclui as ilhas de Murano,
Burano e Torcello.
Nessas condições, não perca tempo indo até o Lido,
que, fora o Hotel Excelsior e o Palácio do Cinema, é um balneário
comum, com uma praia pouco convidativa.
Se você quer ir um pouco mais a fundo na cidade,
recomenda-se entre 5 e 6 dias de permanência, cerca de um para cada
região da cidade, incluindo as ilhas. Lembre-se de que você vai andar
muito a pé (Veneza tem 3,2 por 1,6 km de labirintos), mas, sempre que
estiver muito cansado, existe a opção de você ir até o Canal Grande e
pegar um vaporetto para voltar ao hotel. Nessa programação mais longa,
gaste o primeiro dia em San Marco, visitando a basílica, o Campanário, o
Palácio dos Doges e o Museu Correr. No segundo dia explore San Polo e
Santa Croce, onde as atrações principais são a Ponte e o Mercado de
Rialto, a Igreja de Santa Maria Gloriosa dei Frari (com belas obras de
Ticiano e Bellini) e a Scuola Grande di San Rocco, que tem majestosos
painéis de Tintoretto entre suas obras de arte. No terceiro dia, vá ao
bairro de Castello, de onde você tem uma linda vista para a igreja de San
Giorgio Maggiore (do outro lado da baía), o Museu Diocesano, construído
na clausura de um antigo mosteiro beneditino, e a Igreja de la Pietà, que
nos dias de Vivaldi ficou famosa como palco de concertos deslumbrantes.
Esse passeio não vai lhe tomar muito tempo, portanto siga até o bairro
de Dorsoduro, que vai merecer um dia e meio de visita, especialmente se
você for visitar o extraordinário acervo da Accademia. Também não
deixe de ir ao Ca´ Rezzonico, um belíssimo palácio com mobiliário
barroco, com salas de baile e obras de arte. A igreja de San Nicolò dei
Mendicoli, construída no século 12 e reconstruída no século 15 é
considerada uma das mais charmosas da cidade, com um interior ricamente
decorado. A de San Sebastiano foi pintada por Veronese. No Cannaregio,
além do velho gueto judeu, as atrações são a Madonna del´Orto, uma
das mais belas igrejas góticas de Veneza, e o Campo dei Mori, que tem
três famosas estátuas de mouros escavadas em seus muros. Faça também
um passeio de barco pela lagoa, começando por Torcello, primeiro núcleo
urbano da laguna, datando do século 5 e 6, onde ainda há uma basílica
bizantina construída no ano de 1008. Burano é uma simpática vila de
pescadores, que se caracteriza pelas casas coloridas. E Murano vale,
sobretudo, pelo artesanato em vidro. Aqui você pode comprar algumas
peças e assistir ao rudimentar processo de fabricação.
Informações Turísticas
Tudo o que você precisa saber (mapas, eventos,
horários, hotéis, restaurantes, passeios) está nas páginas da
revistinha Un Ospite di Venezia, quinzenal, que é distribuída em todos
os hotéis, com informações em inglês e italiano. Caso você queira
conhecer o escritório turístico local, que se chama Azienda di
Promozione Turistica, procure no cais em frente aos jardins que ficam ao
lado da Piazza San Marco. Com milhares de turistas sequiosos de
informações, as atendentes não são muito simpáticas.